Uma reflexão sobre o enem

Texto de autoria do professor Mauro Sérgio – 12/11/2016

O enem tem sido nos últimos anos o principal objetivo de jovens que querem cursar ensino superior. Estudam durante meses, dorme pouco, passam às vezes até 10h por dia estudando direto, abdicam de lazer, internet e jogos para poderem se preparar melhor.O enem foi criado com o objetivo de avaliar o ensino médio, porém com a adoção das universidades públicas como forma de ingresso se tornou uma prova que decide a vida de muita gente: ou passa ou você será infeliz pelo resto da vida.

Muitos jovens acreditam que ser estudante se universidade pública é garantia de felicidade para sempre. Ultimamente tenho visto que alunxs deixaram de fazer aquilo que gostam para se dedicar ao enem. Maria Luisa, de 17 anos., moradora de Mogi das Cruzes, abandou sua paixão pelo balé para estudar para o enem. Mas até de ponto isso é bom para os estudantes? Será que eles devem renunciar as coisas que gostam para tirar uma boa nota no enem? O fato de não passar no exame ou tirar nota baixa leva os estudantes ao desespero, e provavelmente a casos de depressão, estresse e ansiedade extremos, entre outras doenças. A importância que se dá para o enem é tanta que ele passa a ser um caso de vida ou morte, passando serás feliz pelo resto da vida, não passando serás infeliz e amaldiçoado.  Mas há muito mais na vida do que o enem.
Eu sempre costumo dizer aos meus alunxs que eles devem fazer o que gostam. Já encontrei gente por aí que é formada em determinada área mas não exerce porque fez faculdade por influência dos pais. Há sempre a pressão dos pais, eles querem que seus filhos tenham uma boa profissão, ganhem bem e sejam importantes na sociedade.
Acredito que o dinheiro não é tudo, eu prefiro ganhar metade e ser mais feliz. Escolhi ser professor porque amo o que faço, mas sabendo que é uma área difícil de encontrar uma boa remuneração.
Ladislau Dowbor, economista da PUC-SP, dividiu o PIB brasileiro pelo número de habitantes. Cada família com 4 membros teria direito a 8 mil reais por mês.
Segundo ele “O PIB do Brasil é, arredondando, de 5 trilhões de reais. O que significa que para aumentarmos o PIB em 1%, precisamos aumentá-lo em 50 bilhões. Como somos 200 milhões de brasileiros, isto significa que produzimos algo como 25 mil reais por ano por pessoa, cerca de 2.100 reais por mês. Ou seja, com o que produzimos hoje podemos viver com cerca de 8.400 reais por mês por família de 4 pessoas. Em outros termos, o que produzimos hoje dá para todos vivermos de maneira digna e confortável.”

Desigualdade educacional

O ganho de importância do enem acentuou a desigualdade entre alunos de alta e baixa renda. Num evento científico apresentado no IFSP, um pesquisador do tema mostrou que a renda familiar é determinante para o sucesso no enem. A maior renda de família pobre não chega nem aos pés da menos renda da família rica, é uma diferença enorme.
Claro que temos de considerar que o sisu, fies e prouni abriram o ensino superior para muita gente que historicamente estava excluída desta camada, tem avós ou pais com baixa escolaridade, mas mesmo assim as notas mais altas do enem ainda permanecem na mão de poucos.
Os gráficos abaixo mostram como as maiores notas estão concentradas em famílias que tem maior rendimento
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Maior rendimento familiar é igual a melhores notas

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Quando maior a mensalidade do colégio, melhor a nota

Na ditadura militar inverteu-se a lógica do ensino público x ensino privado. Os alunos que não conseguiam permanecer na escola pública acabavam indo para a privada como último recurso. Os ditadores investiram muito na iniciativa privada, isto aliado com a péssima gestão educacional dos últimos 20 anos em São Paulo, que criou o caos que vemos hoje.

O ódio ao pobre

Pablo Gentili, professor da UFRJ, num livro escrito juntamente com Chico Alencar, discorrem sobre o apartheid educacional, que consiste em uma “inclusão segregadora”. Em resumo, os pobres e “indesejáveis” da sociedade são incluídos na escola, porém não lhes é oferecida as mesmas oportunidades de ensino, o que contribui para a reprodução da desigualdade educacional. Assim, aquele que estudou em escola pública raramente terá chance de ingressar nos cursos mais prestigiados, como é o caso de medicina, direito e engenharias, que pagam melhores salários. Profissões que pagam melhor vão gerar uma vida confortável para  família, onde os filhos terão acesso a colégios de elite e uma excelente educação, que por consequência ingressarão nas melhores universidades públicas, nos cursos mais bem remunerados, e assim o ciclo se repete. Portanto é necessário alguma ação que quebre esse ciclo.
Em 2012 estudantes do Mackenzie, tradicional e elitizada universidade da capital de SP, fizeram um protesto quando da adoção do enem como forma de ingresso.

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Um estudante justificou: “A gente acha que o Enem é um sistema que não passa credibilidade. Já aconteceu uma série de problemas. A gente não pode aceitar que um sistema desses seja a única forma de seleção. Um sistema que é cada vez mais vergonhoso, se for o único sistema de seleção vai decair o prestígio e o reconhecimento da faculdade em alguns anos”. Outro disse “O que nos incomoda é que o Mackenzie nunca consulta os alunos para tomar decisões que interferem no futuro dos alunos. Justamente pelo Enem ter indícios de fraude a gente fica na dúvida de como ficará o prestígio. Os alunos dependem do reconhecimento da faculdade, do diploma”.

Estudando história nós aprendemos a não apenas reconstruir e reinterpretar o passado, mas também entender um pouco das questões do mundo de hoje.
Os dois alunos falam em reconhecimento  e prestígio do nome da faculdade, isto é, o valor que a sociedade atribuir a uma marca ou produto. Mas o problema é que isso nem sempre corresponde a verdade, ou seja, é um dado bastante inconclusivo. Por exemplo, hoje o Iphone é considerado um aparelho de celular símbolo de status, pelos mesmos fatores da Mackenzie: tem boa qualidade, é caro e inacessível para grande parte da população.
O medo dos alunos que protestaram é de que gente diferente deles, não elitizada e proveniente de famílias com renda menor, faça com que o “prestígio” da universidade decaia. Em resumo: lugar de pobre não é em universidade tradicional.

Esse ódio ao pobre é uma coisa constante, não é teoria da conspiração, nós podemos ver isto em muitos lugares. Uma certa vez uma professora da PUC-RJ postou uma foto no seu facebook reclamando de que que havia um homem de shorts e camiseta no aeroporto. Ela tirou uma foto perguntando: “Aeroporto ou rodoviária?” Ocorre que o homem era advogado e estava viajando em férias, o que dá o direito dele se abster de usar terno e gravata, claro. Até o reitor da universidade federal Unirio concordou com a professora.
O caso gerou enorme repercussão e a professora foi afastada de seu cargo.
Por final, vemos que até nos círculos educacionais em que os profissionais deveriam ter um olhar mais humano para com a sociedade, encontramos ódio e preconceito. Felizmente este é um comportamento que não é mais aceito hoje em dia.

O desinteresse do poder público de oferecer uma educação pública de qualidade está vinculado a fazer com que apenas alguns grupos privilegiados tenham cidadania plena, ou seja, usufruam da sociedade em sua totalidade. Toda ação que beneficia pobres é vista como “comunismo petista”, termo que será tratado em breve noutra postagem.
Quando a universidade pública só tinha elite, não havia problema algum, agora com pobres, cotistas, negros, etc, desperta-se as mais profundas demonstrações de ódio de quem se sente “ameaçado”.

Referências para o texto

http://g1.globo.com/sp/mogi-das-cruzes-suzano/noticia/2015/10/estudante-de-mogi-abandona-paixao-por-ballet-para-se-dedicar-ao-enem.html

http://g1.globo.com/sao-paulo/noticia/2012/03/estudantes-do-mackenzie-protestam-contra-o-enem-em-sp.html

https://leonardoboff.wordpress.com/2015/01/18/o-freio-de-mao-puxado-que-trava-a-economia-brasileira-l-dobwor/